Vegetarianismo Ambiental... o que é isso?

16/04/2018

Entenda do que se trata o Vegetarianismo Ambiental, e o porquê de tantas pessoas se tornarem vegetarianas por motivos ambientais. Saiba sobre o quê este conceito diz respeito e o porquê do vegetarianismo ser tão significativo para o meio ambiente.

 

 

Vegetarianismo e as suas motivações

 

O vegetarianismo é, tecnicamente, um sistema alimentar baseado na ingestão exclusiva de alimentos de origem vegetal e, de acordo com o senso comum, trata-se de uma dieta isenta do consumo de carnes [1,2]. Certo, mas o que seria então o vegetarianismo ambiental?

 

Sabemos que nos últimos anos, a quantidade de pessoas adeptas de sistemas alimentares vegetarianos ou semi-vegetarianos vem crescendo em muitos países, inclusive no Brasil. Essas pessoas apresentam diversas motivações para reduzir ou se abster do consumo de alimentos de origem animal, mas, segundo alguns trabalhos [3,4] as principais justificativas para a adoção do vegetarianismo podem ser reunidas em três temas principais: saúde, ética e meio ambiente.

 

Saúde humana, ética animal

 

No que diz respeito à saúde, encontramos declarações sobre os benefícios fisiológicos de uma Dieta Baseada em Plantas (Plant Based Diet) [5], além das constatações sobre o risco de câncer [6], de outras doenças crônicas, e de maiores índices de mortalidade [7] associados à ingestão de carnes vermelhas processadas.

 

Os argumentos éticos, que sustentam o vegetarianismo, envolvem as discussões sobre a crueldade e exploração dos animais (não-humanos) e o extenso debate envolvendo o direito dos animais, senciência, abolicionismo animal [8], além disso, podemos até citar motivações de caráter espiritual ou religioso que vão contra o ato de criar e abater animais para a alimentação [1,9].

 

As justificativas que dizem respeito a ética e saúde costumam ser as mais frequentes segundo alguns estudos [3,10,11] mas, obviamente, maior parte das pessoas não são vegetarianas apenas por ética, ou apenas por saúde, pelo contrário: elas agregam e apresentam justificativas de diversas naturezas que se complementam [3,11].

 

Vegetarianismo ambiental: uma ideia de alimentação mais sustentável

 

No entanto, queremos falar do terceiro grupo de motivações, o meio ambiente.  Aí que reside o Vegetarianismo Ambiental. Diversos trabalhos científicos e publicações estão mostrando que as preocupações com o meio ambiente e com o desenvolvimento sustentável da civilização estão, cada vez mais, sendo relacionadas com o vegetarianismo [1,2,3,9,12,14,15,16,17,18,19].

 

Isso se deve pelo fato de que “o setor da pecuária é um dos dois ou três contribuintes mais significantes para os problemas ambientais mais sérios, em todas as escalas do local ao global” [20]. Em outras palavras, poucas atividades causam mais impacto ambiental do que o consumo massivo e industrializado de carne por parte da população [2,20,21].

 

Tendo isso em vista, muitos trabalhos científicos mostram que dietas baseadas em plantas, e, sobretudo, um dietas vegetarianas, são, de modo geral, sistemas alimentares muito mais sustentáveis [2,12,14]. Diversos estudos mostram que uma redução global no consumo de carne pode diminuir significativamente as emissões de gases do efeito estufa [5], reduzir drasticamente o desmatamento e a perda da biodiversidade futura [22,23], reduzir a poluição do solo, água e da atmosfera, diminuir a necessidade de produção agrícola para alimentar animais [20], além dos benefícios na economia e na saúde pública [5]. Em suma, dietas baseadas em plantas são, geralmente, mais sustentáveis do que dietas baseadas em carne, consumindo muito menos recursos naturais [24].

 

Um potencial desconhecido

 

Como há um forte lobby e influência pecuarista na mídia, na política [25] e em outras esferas [26], boa parte da população não sabe de tudo isso. No entanto, graças a diversos estudos científicos, sabe-se que os impactos ambientais da pecuária estão entre os mais significativos do nível local ao global. O vegetarianismo, portanto, tem muito a ver com meio ambiente [5,8,14,18,19,27].

 

Logo, o Vegetarianismo Ambiental, ou seja, a adoção de sistemas alimentares vegetarianos (ou semi-vegetarianos) por motivações de caráter socioambiental, possui um potencial imenso (e desconhecido por boa parte da população) para melhorar o preocupante cenário socioambiental atual [19], especialmente se somarmos tudo isso às justificativas éticas, econômicas e sociais que estão atreladas ao vegetarianismo.

 

Por Ravi Orsini

QUER SABER MAIS?

Leia o artigo "Vegetarianismo Ambiental", de Ravi Orsini. Apresentado no XVIII Encontro Nacional da Associação Nacional de Pós-Graduação em Ambiente e Sociedade (XVIII ENANPPAS) que ocorreu na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) em 2017.

REFERÊNCIAS CITADAS NO TEXTO: 

 

1.          Azevedo, E. Vegetarianismo. Demetra 8, 275–288 (2013).

2.          Walters, K. S. Vegetarianism: a guide for the perplexed. (Bloomsbury Academic, 2012).

3.          Fox, N. & Ward, K. Health, ethics and environment: a qualitative study of vegetarian motivations. Appetite 50, 422–429 (2008).

4.          Hoffman, S. R., Stallings, S. F., Bessinger, R. C. & Brooks, G. T. Differences between health and ethical vegetarians. Strength of conviction, nutrition knowledge, dietary restriction, and duration of adherence. Appetite 65, 139–144 (2013).

5.          Springmann, M., Godfray, H. C. J., Rayner, M. & Scarborough, P. Analysis and valuation of the health and climate change cobenefits of dietary change. Proc. Natl. Acad. Sci. U. S. A. 113, 4146–4151 (2016).

6.          Bouvard, V. et al. Carcinogenicity of consumption of red and processed meat. The Lancet. Oncology 16, (2015).

7.          Larsson, S. C. & Orsini, N. Red meat and processed meat consumption and all-cause mortality: a meta-analysis. Am. J. Epidemiol. 179, 282–289 (2013).

8.          Nunes, E. L. M. Vegetarianismo além da dieta: ativismo vegano em São Paulo. Dissertação de Mestrado em Ciências Sociais (Pontifícia Universidade Católica, 2010).

9.          Sordi, C. De carcaças e máquinas de quatro estômagos: estudo das controvérsias sobre o consumo e a produção de carne no Brasil. (2013).

10.        Janssen, M., Busch, C., Rödiger, M. & Hamm, U. Motives of consumers following a vegan diet and their attitudes towards animal agriculture. Appetite 105, 643–51 (2016).

11.        Ruby, M. B. Vegetarianism. A blossoming field of study. Appetite 58, 141–150 (2012).

12.        Caputo, L., Cattaneo, E., Larghi, A., Luparello, E. & Menegolli, A. Environmental Vegetarianism: report di una controversia. 42 (2012).

13.        Gaard, G. C. Vegetarian ecofeminism : a review essay. Front. A J. Women Stud. 23, 117–146 (2002).

14.        Greif, S. Sustentabilidade econômica e ecológica mediante a opção pelo vegetarianismo. Cad. Debate IX, 55–69 (2002).

15.        Lindeman, M. & Sirelius, M. Food choice ideologies: the modern manifestations of normative and humanist views of the world. Appetite 37, 175–184 (2001).

16.        Lopes, A. Consumo alimentar sustentável: vegetarianismo e omnivorismo. Concurs. Mérito Académico do Cent. Veg. 1–16 (2013).

17.        Mortara, A. ‘Techno mums’ motivations towards vegetarian and vegan lifestyles. Ital. Sociol. Rev. 3, 184–192 (2013).

18.        Salonen, A. O. & Helne, T. T. Vegetarian diets: a way towards a sustainable society. J. Sustain. Dev. 5, 10–24 (2012).

19.        Souza, R. O. C. Vegetarianismo ambiental. Anais XVIII ENANPPAS. (2017).

20.        Food and Agriculture Organization of the United Nations. Livestock’s long shadow: environmental issues and options. (Food and Agriculture Organization of the United Nations, 2006). doi:10.1007/s10666-008-9149-3

21.        Schuck, C. & Ribeiro, R. Comendo o planeta: impactos ambientais da criação e consumo de animais. (Vesper AMB, 2015).

22.        Netherlands Environmental Assessment Agency. Rethinking global biodiversity strategies. (Netherlands Environmental Assessment Agency, 2010).

23.        Machovina, B., Feeley, K. J. & Ripple, W. J. Biodiversity conservation: The key is reducing meat consumption. Sci. Total Environ. 536, 419–431 (2015).

24.        Pimentel, D. & Pimentel, M. Sustainability of meat-based and plant-based diets and the environment. Am. J. Clin. Nutr. 78, 660–663 (2003).

25.        Lahsen, M. Buffers against inconvenient knowledge: Brazilian newspaper representations of the climate-meat link. Desenvolv. e Meio Ambient. 40, 17–35 (2017).

26.        Andersen, K. & Kuhn, K. Cownspirancy: the sustainability secret. (A.U.M. Films, First Spark Media, 2014).

27.        Keith, L. The vegetarian myth : food, justice, and sustainability. (2009).

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