O que aconteceria com o planeta se todos se tornassem veganos?

16/04/2018

Entenda quais seriam as consequências para o planeta de uma redução generalizada no consumo de carne. Compreenda, com conhecimento científico, como a adoção de dietas baseadas em plantas podem trazer benefícios socioambientais ímpares.

 

 

As declarações

  

Recentemente o chef e empreendedor Alex Atala deu uma entrevista para a revista Época Negócios, na qual, apesar de algumas reflexões e críticas interessantes, fez uma série de declarações mal embasadas sobre o veganismo. Não entraremos no ponto onde ele coloca que jovens estão aderindo o veganismo pelo lado “cool” da coisa: o que por si só já é uma extrema contradição, pois, geralmente, é o jovem que adere ao veganismo enfrenta diversos obstáculos de aceitação com os amigos e com a família (caso esteja em dúvida pergunte para alguém que é vegano ao invés de acreditar na opinião de quem não conhece a realidade do assunto). Mas vamos tratar da discussão de sustentabilidade da dieta vegana que o chef levanta.

 

Segundo a entrevista, Alex declara:

Ser vegetariano ou ser vegano por compaixão eu entendo, mas e as nossas áreas degradadas? E a nossa biodiversidade? E a preocupação com a emissão de agroquímicos no sul da Amazônia, que cobre todo o nosso Cerrado, que entra no sul-sudoeste da Argentina e vai para outros países? Existe uma forma de agricultura hoje que não mata animais, mas esteriliza ecossistemas, o que é muito mais grave. Por que o discurso só apaixonado pelos animais? Vamos discutir: como aquela soja foi produzida? Como aquela comida vegana foi produzida? E se todo mundo virar vegetariano? O que vai acontecer com o planeta?

 

Para contestar essa declaração infundada, vamos simplesmente responder a pergunta que ele faz: "E se todo mundo virar vegetariano? O que vai acontecer com o planeta?".

 

Antes de mais nada.... o que mais causa problemas ambientais?

 

Como já mostramos em outro artigo, a pecuária é provavelmente o setor que mais causa impacto ambiental no mundo, do nível local ao global [1] , e no caso do Brasil é a responsável majoritária pela maioria dos problemas ambientais que enfrentamos. Criar animais para se alimentar é muito diferente de produzir alimentos de origem vegetal por fatores ecológicos básicos: de modo geral, criar gado demanda muito mais recursos naturais, espaço, altera mais os ecossistemas e gera mais resíduos e poluição do que cultivar plantas [1,2,3] (futuramente publicaremos um artigo explicando melhor isso).

 

Não estamos, em momento algum, dizendo que não devemos nos preocupar com as monoculturas de soja, ou com a questão dos OGM’s, ou com os impactos significativos dos agroquímicos utilizados pelo agronegócio. Essas questões levantadas são extremamente importantes, porém, em termos ambientais, a pecuária gera impactos em uma escala muito maior que a agricultura, especialmente se tratando do Brasil. Especialmente se levarmos em conta que boa parte dessa agricultura acaba sendo utilizada como ração para animais. Estima-se que cerca de metade da produção mundial de grãos é destinada à pecuária [1]. Ou seja, uma parcela gigante dos impactos da própria agricultura também podem ser atribuídos à produção de carne.

 

O que aconteceria com o planeta se todos virassem veganos?

 

Respondendo a colocação feita pelo chef, com a ajuda do conhecimento científico, podemos ter uma noção de algumas consequências socioambientais no planeta caso houvesse uma redução significativa no consumo de carne ou caso todos adotassem uma dieta vegetariana estrita:

 

Um estudo de 2015 publicado por pesquisadores da Universidade de Oxford [5] mostra que uma redução generalizada no consumo de carne possui o potencial de:

  • Diminuir até 70% das emissões humanas de gases do efeito estufa  (que causam as mudanças climáticas) relacionadas com a alimentação;

  • Salvar até 8,1 milhões de vidas humanas;

  • Proporcionar uma economia em saúde pública de até US$ 1,4 trilhão por ano

 

Por conta da pecuária industrial ser tão mais impactante do que a agricultura, como um todo, os benefícios da redução de consumo de carne estão entre os mais significativos em diversos aspectos. Um relatório de 2010 da Netherlands Environmental Assessment Agency [6] mostra que um estilo de vida mundial sem carne tem o potencial de evitar até 60% da perda da biodiversidade futura. Além disso, diversos outros trabalhos, tais como o artigo publicado na Science of the Total Environment Journal [7], colocam a redução no consumo de carne como um fator chave para a conservação da biodiversidade.

 

 

 

Claro que é difícil saber com total de exatidão o que aconteceria se todos parassem de consumir carne, mas, o que os trabalhos científicos citados nos mostram é que se reduziria significativamente a demanda por terras e a pressão sobre os recursos naturais.

 

Esses são apenas alguns exemplos. Poderíamos citar diversos outros estudos que mostram os benefícios da adoção do vegetarianismo em outros aspectos ambientais, mas, estamos trabalhando para realizar publicações futuras específicas sobre cada tema. Então, fiquemos, por hora, com estes dois exemplos que mostram que a resposta para a pergunta feita é que: de modo geral, íamos ter melhoras significativas no planeta.

 

No entanto, vale à pena fazer um pequeno adendo, ainda que bem óbvio. Sob o ponto de vista ambiental, por mais que hajam muitos estudos científicos que mostram que uma redução no consumo de carne está entre as mudanças mais significativas e necessárias em um panorama geral, a realidade é muito mais complexa e resistente. Existem diversos outros aspectos que são importantes de serem trabalhados e mudados se quisermos alcançar um desenvolvimento sustentável, não apenas o consumo. Estratégias diversificadas e articuladas consumam ser as mais fortes e resilientes. No entanto, temos que reconhecer que, no que diz respeito aos problemas ambientais, a pecuária industrial é, provavelmente, a maior pedra no caminho.

 

Carne e soja: dois pesos, duas medidas

 

Além disso, sabe-se que a espinha dorsal que alimenta do agronegócio no Brasil é a produção de carne em uma lógica industrial, na qual poucas empresas lucram e é o meio ambiente e a população quem pagam o preço. Essa situação, por sua vez, depende de altas taxas de consumo de carne para acontecer [8,9]. Os cultivos vegetais, como a soja, também causam um impacto significativo e merecem atenção? Sim, sem dúvida! Mas comparar os impactos da produção vegetal com a animal, no Brasil, é como comparar um tapa à um soco.

 

Para dar uma noção de como é assimétrico comparar a agricultura com a pecuária, por mais agressiva que a primeira seja, basta observarmos o relatório de 2014 do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável  (CEBDS) em  parceria com a Agência Alemã para a Cooperação Internacional (GIZ) que mostra que para cada 1 milhão de reais de receita gerada com pecuária extensiva no Brasil, gera-se 22 milhões de reais de impacto ambiental que não são compensados ou sequer contabilizados. Segundo o mesmo estudo, para cada 1 milhão de reais de receita gerada com produção de soja no Brasil (por mais destrutiva que a mesma seja), os impactos não chegam nem a 3 milhões de reais [10].

 

Além de ser muito mais impactante, a produção de carne é muito ineficiente. Segundo um estudo feito pelo Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (IMAFLORA), a agricultura brasileira produz 26 vezes mais proteína do que a pecuária, utilizando uma área 2,6 vezes menor [4].

 

Em suma, por mais impactante que seja, por exemplo, a soja, coloca-lá lado a lado com a produção de carne é, no mínimo, inocente.

 

No fim das contas

 

Apesar de nosso entusiasmo pelo vegetarianismo e apesar das extensas comprovações científicas dos benefícios socioambientais da adoção de dietas vegetarianas, sabemos também que a forma com que nos alimentamos, apesar de gerar consequências que extrapolam a esfera individual, é também uma questão pessoal e cultural.

 

Temos muito respeito por diversos aspectos do trabalho de Alex Atala, especialmente seu trabalho promovendo a valorização das PANC’s (Plantas Alimentícias Não-Convencionais) brasileiras e de nossa diversidade agroecológica na alta gastronomia. E sabemos que, obviamente, em um país onde ninguém sabe que a pecuária é causa majoritária de desmatamento e das emissões de gases do efeito estufa nacionais, onde a mídia não toca no assunto (como mostra, por exemplo, o artigo de Myanna Lahsen [11]) não é de se espantar o grau de desinformação do chef Alex Atala sobre o tema.

 

Segundo a reportagem, Alex Atala declara que:
Existe uma forma de agricultura hoje que não mata animais, mas esteriliza ecossistemas, o que é muito mais grave." e "mas muitas vezes você vê discursos emotivos pouco embasados.” 

 

Afinal, com ajuda de um mínimo de embasamento científico, podemos concluir duas coisas:

1- Ironicamente, matar animais é o que, de fato, mais está esterilizando nosso ecossistema.

2- Nesse aspecto, o chef que fez exatamente o que ele criticou “um discurso pouco embasado”.

 

Por Ravi Orsini

REFERÊNCIAS CITADAS NO TEXTO: 

 

1.          Food and Agriculture Organization of the United Nations. Livestock’s long shadow: environmental issues and options. (Food and Agriculture Organization of the United Nations, 2006). doi:10.1007/s10666-008-9149-3

2.          Greif, S. Sustentabilidade econômica e ecológica mediante a opção pelo vegetarianismo. Cad. Debate IX, 55–69 (2002).

3.          Schuck, C. & Ribeiro, R. Comendo o planeta: impactos ambientais da criação e consumo de animais. (Vesper AMB, 2015).

4.          Guidotti, V., Cerignoni, F., Sparovek, G. & Barreto, A. A funcionalidade da agropecuária brasileira (1975 a 2020). Sustentabilidade em Debate. 11 (2015).

5.          Springmann, M., Godfray, H. C. J., Rayner, M. & Scarborough, P. Analysis and valuation of the health and climate change cobenefits of dietary change. Proc. Natl. Acad. Sci. U. S. A. 113, 4146–4151 (2016).

6.          Netherlands Environmental Assessment Agency. Rethinking global biodiversity strategies. (Netherlands Environmental Assessment Agency, 2010).

7.          Machovina, B., Feeley, K. J. & Ripple, W. J. Biodiversity conservation: The key is reducing meat consumption. Sci. Total Environ. 536, 419–431 (2015).

8.          Heinrich Böll Foundation. Meat atlas: facts and figures about the animals we eat. Heinrich Böll Stiftung and Friends of the Earth Europe (Heinrich Böll Foundation, 2014).

9.          Heinrich Böll Foundation. Atlas da carne: fatos e números sobre os animais que comemos. (Heinrich Böll Foundation, 2015).

10.        Carreira, D., Re’em, A. & Tarin, M. Natural capital risk exposure of the financial sector in Brazil. (Trucost, 2015).

11.        Lahsen, M. Buffers against inconvenient knowledge: Brazilian newspaper representations of the climate-meat link. Desenvolv. e Meio Ambient. 40, 17–35 (2017).

 

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