Veganismo, vegetarianismo, pescetarianismo, flexitarianismo: entendendo os conceitos e refletindo sobre rotulações

Compreenda o que é o vegetarianismo, veganismo, ovolactovegetarianismo, lactovegetarianismo, semi-vegetarianismo, pescetarianismo, flexitarianismo. Conheça suas definições técnicas e populares e uma importante reflexão sobre essa diversidade. 

 

 

 

Veganismo, vegetarianismo, ovolactovegetarianismo, lactovegetarianismo, semi-vegetarianismo, pescetarianismo, flexitarianismo...

 

Existe hoje uma grande variedade de termos para expressar a maneira como uma pessoa escolhe atuar perante alimentos e produtos de origem animal e, frequentemente, sentimo-nos confusos em meio a tantas definições. Não é raro escutar em conversas ou, até mesmo, ler em reportagens de grandes veículos de mídia frases como “Sou vegetariano, mas como peixe” ou “Veganismo é um tipo de dieta que (...)”. Neste artigo esclarecemos do que se trata cada um destes termos, e, sobretudo, como podemos usá-los corretamente sem confundir (ou até mesmo ofender) ninguém.

 

Vegetarianismo: definição e uso popular

 

De acordo com o senso comum, o termo “vegetarianismo” trata-se simplesmente de uma “dieta isenta de carnes” [1]. No entanto, o vegetarianismo acaba sendo utilizado para definir alguns tipos de regimes alimentares diferentes, dentre os quais podemos citar alguns principais [2]:

  • Ovolactovegetarianismo: utiliza ovos, leite e derivados na sua alimentação, além dos alimentos de origem vegetal.

  • Lactovegetarianismo: utiliza leite e derivados na sua alimentação, além dos alimentos de origem vegetal.

  • Ovovegetarianismo: utiliza ovos na sua alimentação, além dos alimentos de origem vegetal.

  • Vegetarianismo estrito: não utiliza nenhum produto de origem animal na sua alimentação, apenas alimentos de origem vegetal.

 

Além disso, algumas pessoas discutem a necessidade de se utilizar o termo “estrito”, já que “vegetarianismo”, por si só, deveria remeter a uma dieta baseada em alimentos de origem vegetal. Por outro lado, em termos práticos, o conceito de “vegetarianismo” é, muitas vezes, utilizado para indicar a dieta ovolactovegetariana, o que demonstra, todavia, a necessidade técnica de se distinguir “vegetarianismo” de “vegetarianismo estrito”.

 

Semi-vegetarianismo

 

Existe ainda o termo “semivegetariano” que é utilizado na literatura científica para definir pessoas que comem carne em quantidades menores que onívoros, mas que não são tecnicamente vegetarianos, ou seja, não se encaixam em nenhuma das definições citadas anteriormente [3]. Dentre algumas dietas semi-vegetarianas, podemos citar:

  • Flexitarianismo: utiliza carne, ovos, leite e laticínios na alimentação ocasionalmente, ou seja, com frequência muito menor do que um onívoro, além dos alimentos de origem vegetal [4].

  • Pescetarianismo (ou pescovegetarianismo, ou piscovegetarianismo): utiliza peixes e frutos do mar em sua alimentação, além dos alimentos de origem vegetal, mas não utiliza outros tipos de carnes [5].

 

Mas e o veganismo?

 

 

Até o último parágrafo, estávamos tratando apenas de alimentação e, não é por acaso que não citamos o veganismo. Justamente, o veganismo não trata-se de uma dieta, mas de “uma filosofia e modo de vida que procura excluir, na medida do possível e do praticável, todas as formas de exploração e crueldade com animais para alimentação, vestuário ou qualquer outro propósito”, segundo definição da The Vegan Society, fundada em 1944 [6]. Ou seja, o veganismo diz respeito ao “não consumo de qualquer produto que gere exploração e/ou sofrimento animal”, assim, todo vegano é, via de regra, um vegetariano estrito que, além disso, não utiliza roupas de origem animal ou produtos testados em animais, nem consome entretenimento em que haja a exploração desses, dentre outros exemplos [2].

 

Motivações para o vegetarianismo

 

O número de pessoas adeptas de vegetarianismo cresce aceleradamente e, diversas são as motivações que levam essas pessoas a tomarem tal atitude. Futuramente, em outro artigo, iremos mostrar e discutir essas motivações, no entanto, podemos apontar que essas geralmente fazem parte de três grandes categorias: ética, saúde e meio ambiente [7,8,9,10,11], sendo que a terceira, a questão ambiental, é o foco deste site (ainda que essa se misture e acabe influenciando as outras duas e que, além disso, existam outras justificativas que podem não se encaixar nessas três categorias).


Definições e suas fragilidades

 

Como é possível perceber, há uma diversidade de conceitos, com definições específicas, utilizadas atualmente neste contexto. No entanto, como qualquer outra palavra existente em nosso vocabulário, quando analisamos de perto tanto o seu uso popular, quanto sua etimologia, percebemos que os limites que delineiam e formam seus significados, geralmente, não são exatos, sólidos ou estáticos. É comum que existam exceções, dúvidas e subjetividades.

 

 

Para dar um exemplo mais claro: apesar de, popularmente, se compreender que os vegetarianos estritos consomem apenas alimentos de origem vegetal (assumimos aqui a definição científica clássica de “vegetal” como algo pertencente ao reino Plantae), os mesmos consomem também alimentos do reino Fungi (como cogumelos) e, como costumamos esquecer, alimentos minerais (água e sal). Portanto, as definições que se embasam tecnicamente em uma restrição absoluta aos vegetais já mostram a fragilidade de suas fronteiras e contornos.

 

Por outro lado, analisando a etimologia do termo “vegetarianismo”, é possível associar o conceito não apenas aos vegetais, mas à palavra em latim “vegetus” que significa forte, saudável e vigoroso [11]. Sob esse ponto de vista o significado do termo assumiria outro patamar. No entanto, John Davis [12] alega que o termo não se deriva do latim, mas, foi concebido diretamente a partir da palavra “vegetable” (vegetal) junto ao sufixo “arian”, formando assim “vegetarian”.

 

Como reagir 

 

É normal (e saudável) existirem discussões e mudanças quanto às definições de palavras e seus usos. Mas, mais importante e primordial que tais discussões e controvérsias técnicas, é preciso, antes de tudo, ter respeito às ontologias próprias de cada ser humano no uso das suas autodefinições e posicionamentos e, ao mesmo tempo, prezar por alguma coerência com a realidade e pelo lugar de fala de quem vive estes universos.

 

Em palavras mais simples: devemos tomar o cuidado de não desrespeitar, constranger, acusar de hipocrisia ou forçar a adoção de novos conceitos a alguém que, por exemplo, come peixe e se intitula “vegetariano” (especialmente se a pessoa possui motivações pessoais para fazê-lo), pois, deslegitimar esta pessoa está entre as atitudes mais rudes neste contexto, podendo vir a desencorajá-la em suas convicções e busca. Mas, ao mesmo tempo, podemos sugerir e explicar para esta pessoa, de forma educada e bem embasada, outros termos mais adequados sob o ponto de vista técnico-científico e político da palavra.

 

Afinal, quando vegana, vegetariana ou semi-vegetariana, uma pessoa geralmente preza por acessibilidade e inclusão descomplicada no meio comum. Assim, ela deve preocupar-se em não se tornar intolerante dentro do seu próprio círculo, seja tomando atitudes que são regadas apenas por suas resoluções próprias, desmantelando, assim, a credibilidade do outro, ou seja pelo uso equivocado de definições.

 

 


Por Ravi Orsini e Laura Luíza.

QUER SABER MAIS?

Acesse o site da Sociedade Vegetariana Brasileira: svb.org.br​

REFERÊNCIAS CITADAS NO TEXTO: 

 

1.          Azevedo, E. Vegetarianismo. Demetra 8, 275–288 (2013).

2.          Sociedade Vegetariana Brasileira. Vegetarianismo. (2018). Available at: https://www.svb.org.br/vegetarianismo1/o-que-e.

3.          Slywitch, E. Guia alimentar de dietas vegetarianas. Soc. Veg. Bras. 1–66 (2012).

4.          Heinrich Böll Foundation. Meat atlas: facts and figures about the animals we eat. Heinrich Böll Stiftung and Friends of the Earth Europe (Heinrich Böll Foundation, 2014).

5.          Slywitch, E. Virei vegetariano, e agora? (2010).

6.          The Vegan Society. Definition of veganism. (2018). Available at: https://www.vegansociety.com/go-vegan/definition-veganism.

7.          Ruby, M. B. Vegetarianism. A blossoming field of study. Appetite 58, 141–150 (2012).

8.          Rosenfeld, D. L. & Burrow, A. L. Vegetarian on purpose: Understanding the motivations of plant-based dieters. Appetite 116, (2017).

9.          de Boer, J., Schösler, H. & Aiking, H. Towards a reduced meat diet: Mindset and motivation of young vegetarians, low, medium and high meat-eaters. Appetite 113, (2017).

10.        Fox, N. & Ward, K. Health, ethics and environment: a qualitative study of vegetarian motivations. Appetite 50, 422–429 (2008).

11.        Souza, R. O. C. Vegetarianismo ambiental. Anais do XVIII ENANPPAS. (2017).

12.        Nunes, E. L. M. Vegetarianismo além da dieta: ativismo vegano em São Paulo. Dissertação de Mestrado em Ciências Sociais (Pontifícia Universidade Católica, 2010).

13.        Davis, J. The vegetus myth. Vegsource (2011). Available at: http://www.vegsource.com/john-davis/the-vegetus-myth.html.

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